Hoje eu estava pensando um pouco na minha saga de ficar magra e aceitável para a sociedade, e me lembrei bem de uma época da minha vida, onde pouquíssimas pessoas sabem como foi, que foi quando eu perdi incríveis 17 quilos em apenas 4 meses.

Pois é, eu sai de 70 quilos para 53 quilos em quatro meses e me tornei o orgulho e o exemplo de tanta gente! Muitos amigos que estavam acima do peso, que decidiram fazer dieta pelo meu exemplo, muita gente que me achava uma gordinha feia e esquisita começaram a exaltar como eu estava muito mais bonita magra e até fui convidada para participar de um concurso de miss, aqui na minha cidade, depois de perder incríveis 17 quilos.

Uma história linda de superação, de garra, força e… vômitos. Pois é, o show do meu emagrecimento foi realmente lindo. Nunca me senti tão aceita assim como nessa época. Inclusive, eu nunca tinha me sentido tão desejada quanto nessa época… E tão desprezada também, afinal, foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a amar e fui rejeitada pela primeira vez na vida.

Eu me olhava no espelho e mesmo com 53 quilos, eu ainda via uma menina gordinha, estranha e que podia melhorar, apesar de já ter melhorado muito. Ainda estava fazendo dieta, andando feito louca pela cidade inteira a pé (às vezes chegava a ser mais de 14 quilômetros por dia) e me privando de pequenos desejos, como uma carolina, uma esfiha do Habibs ou ainda um simples bombom sem açúcar.

Foi uma dieta bem restritiva, mas que teve resultado imediado, mas ninguém sabia, de fato, o que eu estava fazendo para emagrecer tanto. As pessoas achavam até que eu tinha contraído HIV (ah cidade pequena e suas manias de pensar logo o pior das pessoas), por isso tinha emagrecido tanto. Eu estava adorando as dúvidas, só o processo era muito complexo.

EU ERA BULÍMICA E SABIA DISSO

A primeira vez que eu coloquei tudo que eu havia comido para fora foi logo após ter começado a dieta. Em apenas uma semana eu já tinha perdido quatro quilos, então, eu acreditei mesmo que poderia perder mais quatro na outra. Perdi apenas dois. Fiquei bem frustrada.

Duas semanas depois de começar a dieta, vomitei pela primeira vez e foi horrível. Eu entrei para o banho logo depois e comecei a chorar, porque eu sabia que se quisesse mesmo emagrecer mais rápido, teria que fazer aquilo mais vezes.

Eu vomitei porque estava às vésperas da minha formatura e quando fui experimentar o vestido que eu mais tinha amado, ele não fechava. Eu tinha mais de um palmo para fechar, na verdade. Eu sabia se eu quisesse mesmo usar aquele vestido, eu teria que perder, no mínimo uns dez quilos em um mês e saber que dois quilos apenas tinha saído do meu corpo em uma semana, não ia me ajudar em nada.

Usei uma escova de dentes para conseguir induzir o vômito. Claro que ela machucou a minha garganta e eu fiquei com a voz estranha alguns dias. Eu fingi que eram pigarros de uma gripe que eu havia acabado de sair.

Eu comecei a vomitar pelo menos uma vez por semana no começo. Com a dieta, foram eliminados incríveis 10 quilos em apenas um mês e o vestido fechou! Eu me senti vitoriosa, mas não satisfeita.

No mês seguinte, eu comecei a vomitar mais vezes na semana, eu vomitava pelo menos 3 vezes na semana, sendo que isso acontecia, na grande maioria, na hora do almoço, onde eu já comia muito pouco e tinha uma alimentação pobre.

Também acontecia nos finais de semana, quando eu queria fingir que estava tudo bem para os meus amigos e comia algo normal e depois ia no banheiro ali mesmo, do restaurante, para colocar tudo para fora, mesmo que fosse apenas um pedaço de pizza de muçarela.

Comendo pouco, andando muito e vomitando com frequência, lá se foram mais seis quilos em dois meses e meio e no restante, mais um quilo.

Ali, eu estava quase satisfeita com o meu peso, minhas roupas antigas estavam tão grandes, que eu tive que renovar até minhas calcinhas, que não serviam mais em mim. Minhas blusas sobravam tanto, que eu tinha que usar cintos para marcar a minha cintura, que agora era muito pequena, incríveis 65cm, para conseguir usar.

Eu estava magra, todo mundo elogiando e eu estava realmente adorando isso, mas aos poucos, estava me maltratando e acabando com meu estômago.

QUANDO DECIDI PARAR

Aos poucos eu comecei a perceber que junto com a bulimia, algumas coisas estavam acontecendo também. Meu cabelos começaram a ficar muito frágeis e bem quebradiços. Eu coloquei a culpa na coloração forte que eu usava. Minhas unhas não cresciam, mas estava tudo bem, porque quando eu não era magra, minhas unhas eram sempre curtas, eu odiava escrever com elas compridas.

Reparei também que meu estômago já não aceitava muita comida, na verdade, ele passou a não aceitar nem a quantidade necessária para nutrir meu corpo e açúcar e outros tipos de alimentos mais fortes, era altamente rejeitado, eu nem precisava mais da escova para vomitar, era apenas comer e ir para o banheiro, colocar tudo para fora.

Mesmo assim, eu ainda me sentia bem, me sentia plena e como se ninguém no mundo pudesse ser mais dedicado do que eu, quando um dia eu vomitei e sentei no chão, porque estava sem forças de parar em pé, foi quando decidi parar de vomitar de uma vez por todas.

Eu estava ali, nua, sentada no chão, agarrando o vaso com força, tonta pela força do vômito e tentando não desmaiar, porque minha pressão caiu tanto que eu não conseguia nem respirar direito.

Eu tinha decidido tomar um banho para ver se passava, mas não havia nem conseguido chegar nesse ponto. Nesse dia eu lembro: eu havia tomado metade de um copo pequeno de leite com achocolatado de manhã, almoçado duas colheres de arroz, duas de feijão e um pedaço que dava um terço da palma da minha mão de carne e comido um pedaço de bolo de chocolate. Aliás, ele tinha sido o motivo do vômito nesse dia.

Depois desse dia, eu nunca mais provoquei meu próprio vômito e meu corpo entendeu que de ali por diante, não seria mais daquela forma. Ele rejeitou comida e bebida por mais algumas semanas, mas depois disso, ele foi aceitando lentamente tudo que eu comia.

Voltei a engordar alguns anos depois e hoje, mesmo gordinha, não voltei à prática da bulimia.

O DESAFIO

Sabe, é muito difícil, às vezes, você conseguir não pensar em vomitar um alimento, mesmo anos depois de conseguir parar de fazer isso.

Apesar de ficar mais fácil para fazer o ato em si, psicologicamente nunca fica mais fácil, mas você começa a encarar como uma rotina, algo desagradável que você tem que fazer para um bem maior. Eu li relatos de pessoas que achavam que se não fizessem isso, poderiam morrer. Eu nunca cheguei nesse ponto, mas nunca tive medo de chegar. Depois que emagreci, eu tive medo de engordar de novo.

Eu chorei muitas noites quando voltei a engordar e não conseguia emagrecer, porque eu não conseguia entender como e porque meu corpo estava reagindo a isso. Segundo uma endocrinologista, ela me explicou que o ato de vomitar não é saudável, afinal, tem coisa saindo por onde só deveria entrar, e que isso, além de me proporcionar uma gastrite nervosa e depois aguda (porque meu estômago sempre estava sem nada para digerir e ainda o que tinha, voltava com o vômito), eu expulsei muitos nutrientes, que até hoje me fazem falta.

Depois dos meus episódios de bulimia eu voltei a engordar… Muito. Recuperei meus 17 quilos e ainda ganhei mais 5. Ao todo já cheguei a pesar 76 quilos e foi assustador. Imagina, você sair do 36 (dependendo da roupa, até tamanho 16, de criança) para usar 44?

Hoje, eu estou com 70 a 69 quilos, me sinto mal às vezes, pois aquele corpo que eu tinha quando colocava tudo para fora, quando comia, para mim, é o mínimo do aceitável, do ideal para mim. Não sou gordofóbica, aliás, acho gordinhos lindos e algumas gordinhas muito mais sexies que essas mulheres que se virar de lado, desaparecem. Mas para mim, eu me acho sempre muito, mas muito, mas muito gorda. É mais trabalho de autoestima.

Ainda é muito complicado não vomitar aquilo que como. Hoje tenho uma alimentação ainda ruim, mas bem melhor do que eu tinha antes, faço exercício com frequência e a minha taxa de emagrecimento é muito menor que naquela época (alô 30 anos!), mas evito pensar que se eu vomitar o que eu como, vou emagrecer mais rápido, pensando no que eu posso colocar em risco. Uma úlcera? Um refluxo sem remédio?

E assim, eu vou tentando segurar, me amar, mesmo com a sociedade dizendo: nossa, como você engordou! Por que você não volta a ter aquele corpinho de antigamente? Ou: Nossa, você tá bonita, mas tá diferente né?

Infelizmente, nossa sociedade ainda não aceita coisas óbvias: mulheres gordas e/ou velhas e isso, vai gerando uma onda de pessoas perfeitas se achando imperfeitas e infelizes.

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