Uma vez me disseram que eu era muito desapegada das coisas, que eu não ligava para muitas coisas, que eu era uma pessoa leve, que se eu perdesse algo, eu ficaria chateada, mas depois de alguns minutos eu ia esquecer e continuar seguindo.

Eu confesso que eu fiquei muito feliz com esse elogio. Sim, para mim, ser desapegada é um dos maiores elogios que as pessoas podem fazer às outras, pois isso mostra que elas conseguem mudar, que elas conseguem ir e voltar de uma situação, que elas podem ser resilientes.

Ser resiliente é uma coisa que eu sempre quis ser, que eu sempre quis ter, mas nunca consegui muito bem, porque eu sei que cada vez que eu levo uma pancada muito forte, eu volto com um trauma, que parece que não está ali, mas que cada vez mais vai causando um buraco que uma hora, afunda.

Mas eu quero falar do desapego, o desprendimento e como isso é importante. Por mais que eu tenha amado o elogio e feito dele quase uma filosofia de vida, eu ainda não sou desapegada das coisas, pelo contrário, eu tenho muito apego.

Eu tenho apego à minha família, que eu não consigo deixar e apenas de pensar em perder um membro, parece que me arrancaram um pedaço da perna, dos dedos ou dos braços. Dói e ainda eu sei que nunca mais serei capaz de fazer nada com a mesma excelência de antes.

Eu tenho apego aos meus cachorros, que eu sofro de deixar apenas para ir ali, no mercado, que eu choro quando penso que eles estão prestes a partir, porque já estão bem velhinho e que apenas o fato de chegar e casa e não ver mais as marcas de patinha de coisa errada, já faz mu coração doer.

Eu tenho apego aos meus amigos. Ah, meus amigos! Já dizia Paulo Sant’Anna: Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Cada amigo me representa uma fase da vida, uma vitória, um amor, uma aventura. Todos são tão importantes que pensar em perdê-lo me causa ânsia.

Também tenho apego com a minha casa e cada uma das coisas que têm dentro dela. Minha casa é toda cheia de histórias, de superações. Desapegar dela seria desapegar da maior conquista da minha vida e de várias outras conquistas menores, mas tão doces quanto.

Ah, eu também tenho apego às minhas memórias. Adoro abrir um caderno e contar a ele tudo que está dentro do meu peito, tudo que aconteceu em um dia de chuva ou simplesmente colocar como o sol está lindo lá fora, brilhando para todos.

Também tenho apego às coisas que as pessoas me dão, mesmo que simples. Cartas, bonequinhos de madeira, de palito de dente, até escrituras de arame? Sim, tento guardar tudo, porque cada item tem uma história e nossa, como eu amo histórias.

Tenho apego ao sabor. Eu amo um sabor, eu amo comer algo e sentir o sabor que aquele alimento me trás, a memória, o sentimento. O momento!

Também tenho apego às minhas músicas. Tenho uma playlist secreta que é apenas minha e ninguém a ouve, recheada de músicas que me contam momentos, me contam histórias, me contam fatos e que me ajudam a viver os momentos felizes mais felizes e os momentos tristes com menos dor.

Também me apeguei em escrever, em colocar tudo para fora e por isso, tenho apego nas cartas que as pessoas me escrevem, com todos os seus sentimentos, com todo o sem tempo e dedicação. Já parou para pensar que aquela carta tem muito mais que palavras: tem o tempo, o carinho, a admiração e o amor da pessoa? Em tempos de WhatsApp, quem ainda perde tempo escrevendo carta, se aquilo não for importante para ela?

Enfim… eu realmente queria ser mais desapegada, mas pelo caminho e lista de coisas que ainda tenho apego, acredito que ainda serei apegada há muitas coisas e está tudo bem também. Não vim nessa vida para ser desapegada de uma vez, a gente tem muitas vidas para ir se desapegando aos poucos.

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